A minha banda sonora


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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Aliás, acrescentei, uma profissão não era para mim um bilhete de identidade. Poderia ficar na aldeia, trabalhando a terra como o meu irmão Tomás. Mas havia o vício do livro, do meu verso clandestino. Cumprido o dever burocrático, ficar-me-ia tempo para o mais. Sim, sim escrevia o meu verso. Mas a arte não era para mim um mundo da letra impressa, uma estúpida invenção de passatempo ou de vaidade: era uma comunhão com a evidência, uma reencarnação na verdade de origens - eu o sabia, eu o saberia sobretudo depois."
"E, todavia, pesa-me como uma pata de violência a realidade da pessoa que somos. Há muita coisa a arrumar, a harmonizar, muita coisa ainda a morrer. Mas por enquanto está viva. Por enquanto sinto a evidência de que sou eu que me habito, de que vivo, de que sou uma entidade, uma presença total, uma necessidade do que existe, porque só há eu a existir, porque eu estou aqui, arre!, estou aqui, EU, este vulcão sem começo nem fim, só actividade, só estar sendo, EU, esta obscura e incandescente e fascinante e terrível presença que está atrás de tudo o que digo e faço e vejo - e onde se perde e esquece. EU! Ora este «eu» é para morrer. Morre como a intimidade de uma casa derrubada. Sei-o com a certeza do meu equilíbrio interior. Mas como é possível? Agora sou eu essa intimidade, agora sou eu o seu espírito, a sua evidência."
"E todavia, agora que me descubro vivo, agora que me penso, me sinto, me projecto nesta noite de vento, de estrelas, agora que me sei desde uma distância infinita, me reconheço não limitado por nada mas presente a mim próprio como se fosse o próprio mundo que sou eu, agora nada entendo da minha contingência. Como pensar que «eu poderia não existir»? Quando digo «eu», já estou vivo... Como entender que esta iluminação que sou eu, esta evidência axiomática que é a minha presença a mim próprio, esta fulguração sem princípio que é eu estar sendo, como entender que pudesse «não existir»? Como pensar que é nada? A minha vida é eterna porque é só a presença dela a si própria, é a sua evidente necessidade, é ser eu, EU, esta brutal iluminação de mim e do mundo, puro acto de me ver em mim, este SER que irradia desde o seu mais longínquo jacto de aparição, este SER-SER que me fascina e às vezes me angustia de terror... E todavia eu sei que «isto» nasceu para o silêncio sem fim..."
in aparição, de Vergílio Ferreira

Um comentário:

real republica disse...

eh...isto por aqui está bom!!!...o Virgilio era um chatarrão!...tirou curso no seminarão!!!...e toma lá...qu'é pr'á prenderes...

"Só, incessante, um som de flauta chora..."...e embrulha!